Percurso - Évora Capital do Megalitismo Ibérico ou "Vamos procurar os menires do Obélix"

 

Nada como preparar um piquenique, metermo-nos no carro e partir em direcção ao Alentejo, numa aventura para descobrir os menires do Obélix... ;-)

 

 

Os arredores de Évora, e sobretudo o território a Oeste da cidade, constituem, em termos peninsulares, a paisagem megalítica mais diversificada e monumental.
A quantidade e as dimensões dos monumentos megalíticos de Évora relacionam-se, antes de mais, com a posição privilegiada deste território, em termos de transitabilidade natural: de facto, nos arredores da cidade, encontramos o único ponto em que as bacias hidrográficas dos três maiores rios do Sul - o Tejo, o Sado e o Guadiana - se tocam.
O papel estruturante, nas redes viárias primitivas, desempenhado pelos cursos de água e pelos festos - as linhas divisórias das bacias hidrográficas - foi certamente determinante na excepcionalidade do megalitismo eborense.
Por outro lado, se considerarmos o megalitismo como um fenómeno enraizado nas práticas culturais das últimas comunidades de caçadores-recolectores, em face de profundas transformações, vindas do Mediterrâneo oriental, juntamente com o modo de vida agro-pastoril, o carácter específico da área de Évora parece ser uma consequência das dinâmicas dessas comunidades que tiveram, nos estuários do Tejo e do Sado, tal como na Bretanha, dois dos núcleos mais importantes da fachada atlântica europeia.
Os monumentos/sítios, propostos neste Roteiro, não estão isolados. Só no distrito de Évora, conhecem-se, actualmente, mais de uma dezena de recintos megalíticos, quase uma centena de menires isolados (ou associados em pequenos grupos), perto de oitocentas antas e cerca de quatrocentos e cinquenta povoados "megalíticos". Existem ainda alguns raros exemplares de monumentos aparentados, os tholoi, e, na área da Barragem do Alqueva, foi recentemente descoberto um extraordinário santuário de arte rupestre, actualmente submerso. Conhecem-se igualmente cerca de uma centena de pedras com covinhas, monumentos misteriosos certamente relacionados com o megalitismo; com efeito, as covinhas surgem, frequentemente, gravadas nos próprios monumentos megalíticos.

 

 

 

2000 anos antes de Stonehenge:  o recinto megalítico dos Almendres

O maior monumento megalítico da Península Ibérica e um dos mais antigos monumentos da Humanidade.
Foi construído há cerca de 7000 anos, nos alvores do Neolítico, a época em que surgiram, na Europa ocidental, as primeiras comunidades de pastores e agricultores, no contexto de profundas transformações culturais.
O recinto dos Almendres cuja planta original era, muito provavelmente, em forma de ferradura, aberta a nascente, parece ter sofrido acrescentos e remodelações: a forma actual do monumento, relativamente complexa, resulta, por um lado, dessas intervenções antigas e, por outro, de amputações e perturbações muito recentes. Actualmente, conta com cerca de uma centena de monólito, alguns deles decorados.

A escolha dos lugares em que estes monumentos foram erigidos, teve seguramente em conta a estrutura física da paisagem, nomeadamente a rede hidrográfica, mas também os fenómenos astronómicos mais notórios, relacionados com os movimentos anuais do Sol e da Lua, no horizonte.

Nos arredores de Évora, numa área restrita, a Oeste da cidade, localizam-se outros dois recintos do mesmo tipo - Portela de Mogos e Vale Maria do Meio. Este conjunto constitui a maior concentração de menires da Península, demonstrando o papel especial que esta região desempenhou na génese do megalitismo europeu.

 

 

 

As pedras solitárias: o menir do Monte dos Almendres

Como na maioria das regiões megalíticas europeias, existe, na região, um número elevado de menires isolados, alguns deles em aparente articulação espacial com os recintos e genericamente contemporâneos.

O menir do Monte dos Almendres é um exemplar de forma ovóide alongada, característica dos menires da área de Évora e exibe um báculo, gravado em baixo-relevo, na parte superior.

O báculo é o tema mais frequente nos menires alentejanos (e igualmente muito bem representado, nos menires bretões); trata-se de um tema que evoca certamente a economia neolítica, em que a pastorícia desempenhou um papel central; reflecte igualmente os fundamentos da ideologia neolítica, em que o domínio da natureza, a domesticação de animais e plantas, constituiu um dos temas dominantes.

Alguns dos menires foram decorados com motivos que reforçam, de um modo geral, o respectivo carácter antropomórfico: estamos, na verdade, perante as primeiras estátuas representações tridimensionais e em grande escala, da figura humana. O nascimento da estatuária.

A localização do monumento relaciona-se claramente com a do recinto dos Almendres, uma vez que corresponde a uma direcção astronómica elementar: o menir, visto a partir do recinto, indica a posição do nascer do Sol, no dia maior do ano, o dia do Solstício de Verão.

 

 

A catedral megalítica: anta Grande do Zambujeiro

As antas são monumentos funerários colectivos que correspondem, de uma forma geral, a uma segunda fase do megalitismo regional; foram construídas, na sua maioria, nos finais do Neolítico, há menos de seis mil anos.

Os monumentos megalíticos funerários mais antigos eram formalmente semelhantes, embora de pequenas dimensões e sem corredor, correspondendo geralmente a enterramentos individuais.

A Anta Grande do Zambujeiro é, provavelmente, a mais alta do mundo, com grandes esteios de granito que atingem cerca de 6 m de altura. A estrutura pétrea do monumento é constituída por uma câmara definida por sete esteios (mais uma pedra de fecho, por cima da entrada da câmara) e um corredor longo. O conjunto era coberto com tampas monolíticas; a laje de cobertura da câmara jaz actualmente sobre a mamoa, no lado poente.

O monumento conserva ainda uma boa parte da mamoa, o montículo de terra e pedras que cobria e ocultava originalmente, pelo exterior, a estrutura pétrea. Na periferia da mamoa, foi construído um anel de contenção, com esteios fincados.

O estado actual do monumento, relativamente periclitante, resultou de uma intervenção antiga que, por ter retirado parte da mamoa, reduziu drasticamente a estabilidade do conjunto; foi, por isso, necessário, construir uma cobertura provisória e estabilizar alguns pontos mais sensíveis da estrutura, enquanto não é possível uma recuperação mais definitiva do monumento.

Para além da anta propriamente dita, existem, junto ao monumento, dois enigmáticos blocos graníticos, de grandes dimensões; um deles, de forma paralelepipédica, à entrada do corredor, e outro, nas imediações, com a face exposta crivada de covinhas.

 

 

 

 

As origens pré-históricas da cidade de Évora: o povoado do Alto de S. Bento

O Alto de S. Bento é o grande miradouro natural sobre a cidade, a nascente, e sobre uma das paisagens melhor conservadas dos arredores de Évora, a poente.

Em todo o cimo do cabeço, têm sido recolhidas, desde o século XIX, evidências de um povoado pré-histórico, cuja fase mais antiga remonta aos inícios do Neolítico regional (há cerca de 7000 anos) e cuja ocupação se prolongou, pelo menos, até aos inícios do Calcolítico (há cerca de 5000 anos).

Trata-se de um verdadeiro povoado "megalítico", no sentido em que foi ocupado durante todo o período em que, na região, foram construídos os menires e as antas, e também porque, originalmente, no local, existiam, muito provavelmente, grandes afloramentos graníticos, entretanto muito reduzidos pela exploração de pedreiras.

Na verdade, conhecem-se hoje, no Alentejo Central, inúmeros locais de povoamento dessas épocas, em que a característica mais notória é, precisamente, a presença de grandes rochedos graníticos que evocam, naturalmente, os verdadeiros monumentos megalíticos.

No caso do Alto de S. Bento podemos, com propriedade, falar nas origens mais antigas da cidade de Évora. Na verdade, o povoado expandiu-se, sobretudo a partir dos finais do Neolítico, para áreas limítrofes, com destaque para o povoado de S. Caetano, a Sudoeste, e da Quinta do Chantre, a Nascente; se considerarmos, no seu conjunto, os vários núcleos conhecidos, estamos, sem dúvida, perante o maior povoado pré-histórico conhecido no concelho, e um dos maiores da região.

Os arredores de Évora, e sobretudo o território a Oeste da cidade, constituem, em termos peninsulares, a paisagem megalítica mais diversificada e monumental.
A quantidade e as dimensões dos monumentos megalíticos de Évora relacionam-se, antes de mais, com a posição privilegiada deste território, em termos de transitabilidade natural: de facto, nos arredores da cidade, encontramos o único ponto em que as bacias hidrográficas dos três maiores rios do Sul - o Tejo, o Sado e o Guadiana - se tocam.
O papel estruturante, nas redes viárias primitivas, desempenhado pelos cursos de água e pelos festos - as linhas divisórias das bacias hidrográficas - foi certamente determinante na excepcionalidade do megalitismo eborense.
Por outro lado, se considerarmos o megalitismo como um fenómeno enraizado nas práticas culturais das últimas comunidades de caçadores-recolectores, em face de profundas transformações, vindas do Mediterrâneo oriental, juntamente com o modo de vida agro-pastoril, o carácter específico da área de Évora parece ser uma consequência das dinâmicas dessas comunidades que tiveram, nos estuários do Tejo e do Sado, tal como na Bretanha, dois dos núcleos mais importantes da fachada atlântica europeia.
Os monumentos/sítios, propostos neste Roteiro, não estão isolados. Só no distrito de Évora, conhecem-se, actualmente, mais de uma dezena de recintos megalíticos, quase uma centena de menires isolados (ou associados em pequenos grupos), perto de oitocentas antas e cerca de quatrocentos e cinquenta povoados "megalíticos". Existem ainda alguns raros exemplares de monumentos aparentados, os tholoi, e, na área da Barragem do Alqueva, foi recentemente descoberto um extraordinário santuário de arte rupestre, actualmente submerso. Conhecem-se igualmente cerca de uma centena de pedras com covinhas, monumentos misteriosos certamente relacionados com o megalitismo; com efeito, as covinhas surgem, frequentemente, gravadas nos próprios monumentos megalíticos.

publicado por D. às 22:14 | comentar | favorito | partilhar